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Um dia desses, evidentemente, tudo há de dar certo, os automóveis se
extinguirão e a superfície da Terra será povoada apenas por bicicletas.
Alguns carros, ônibus e caminhões serão expostos nos museus, feito mamutes,
guilhotinas e outros monstros findos, para divertir a criançada e alertar
os adultos: que o horror jamais se repita. Sobre selins acolchoados
seremos felizes pra sempre.
(...)
É impensável um facínora de bicicleta, inconcebível um ditador pedalando.
As "máquinas da paz", como as chamou Vinícius de Moraes, em sua 'Balada
das Meninas de Bicicleta', são muito mais afeitas aos suaves cuidados das
moças: "Bicicletai, meninada!/Aos ventos do Arpoador/Solta a flâmula
agitada/Das cabelerias em flor".
As bicicletas são um indício de civilização. Recomendadas por ecologistas,
urbanistas, cardiologistas e artistas, têm logo de entrar na agenda
política. Ainda não vi nenhum candidato expor, no horário eleitoral, seu
projeto nacional de bicicletização. Se aparecer algum, ganhará de imediato
meu apoio.
Se Deus voltasse à Terra e dissesse "me mostrem aí o que vocês fizeram",
teríamos de levá-Lo imediatamente a Amsterdã, para um passeio ciclístico,
em torno daqueles belíssimos canais. Ou então ao Rio de Janeiro.
Pegaríamos Deus no Santos Dumond (vindo do céu, é de se supor que chegará
de avião) e O colocaríamos na garupa. Cruzaríamos todo o Aterro, pedalando
sem pressa, sob o sol ameno das quatro e meia da tarde. Passaríamos pela
estátua de Drummond em Copacabana, veríamos as garotas saírem do mar em
Ipanema e terminaríamos o passeio no Leblon, com um mergulho no mar e um
suco de melancia, no exato momento de o sol se pôr. Se Deus tiver um pingo
de sensibilidade, estaremos todos salvos.
(Antonio PRATA. Bicicletai! Suplemento Guia de O Estado de São Paulo, nº
255)
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